João
Batista Freire
Olha a contradição: quando corremos, seria mais fácil
fazê-lo se mantivéssemos nossa consciência voltada somente para as ações de
correr, o que é dificílimo. Tento fazer isso e sei que é difícil, porque manter
a consciência voltada exclusivamente para algo é uma tarefa que requer
disciplina muito rigorosa e um extenso treinamento. O que consigo, depois de
muitos anos tentando, é manter por alguns momentos a consciência focada, tanto
é que produzi este texto enquanto corria, prova de minha dificuldade de
concentração só na corrida, que não é menor que a das demais pessoas que também
tentam.
O problema é que qualquer ação humana consome energia.
Faz todo o sentido dizer que, durante uma corrida, ou qualquer outra tarefa muito
exigente, qualquer ação fora daquela necessária à corrida consome energia
desnecessária. Por exemplo, enquanto corro, se penso neste texto, parte de
minha energia será consumido para algo que não é correr. Se durante uma
maratona, minha preocupação constante é com a linha de chegada, ou com
possibilidades de contusão, etc., parte da energia que deveria ser mobilizada
para resistir à maratona será consumida desnecessariamente. Em vez disso, se
minha consciência estivesse voltada para cada passo de corrida, ou para os
movimentos de meu quadril, ou para minha respiração, por exemplo, toda a minha
energia seria mobilizada para a corrida e não para outras coisas.
Manter a consciência voltada para a ação pode ser
entendido como ser capaz de voltar a atenção especificamente para algo e não deixá-la
se dispersar. Atenção e consciência não são a mesma coisa. A atenção é o
atributo que nos permite focalizar alguma coisa ou mais de alguma coisa ao
mesmo tempo, de forma a prendê-la às minhas intenções de lidar com ela. A
consciência é um atributo superior, uma espécie de super-atenção, que nos
permite tomar distância dos acontecimentos e apreciá-los como se pairássemos
sobre ele. É um conhecimento sobre o conhecimento, uma luz que ilumina aquilo
que fazemos e o torna claro, compreensível, sob nosso controle.
Estou falando da corrida, mas poderia falar também sobre
o ciclismo ou sobre a natação, por exemplo; não o faço por ter poucas
experiências nesses esportes. Sei que, nos treinamentos, quer seja para
iniciantes ou para atletas de alto rendimento, investimos muito em força,
resistência, nos preocupamos com a alimentação e a hidratação, com a
biomecânica dos passos, mas pouco nos preocupamos com a economia dos gestos. E
a economia dos gestos diz respeito diretamente à técnica. Técnica, em
treinamento esportivo corresponde a economia. De forma que a regra “quanto
menos melhor”, aplica-se perfeitamente ao esporte: quantos menos tempo de
treinamento, melhor; quando menos gestos, melhor, etc. Desde que os
profissionais do esporte compreendam bem o que significa esse “menos”. Quanto
melhores forem os treinamentos, menos os corredores precisarão treinar, até
porque um dos maiores inimigos do esporte é o excesso de treinamentos com todos
os seus consequentes danos à saúde. Sobre o “quanto menos gestos, melhor”,
significa que todo movimento em esporte tem que ser limpado, até que tudo que
não seja estritamente necessário saia. O movimento limpo é bonito, daí os
elogios à beleza dos gestos dos grandes atletas. Deduz-se também que os
treinadores podem investir na beleza dos gestos.
Pois bem, embora o tema renda muitas palavras, não
pretendo me alongar muito. Só quero deixar claro que investir na
conscientização dos praticantes sobre suas ações é um caminho que pode levar ao
sucesso nas corridas, e isso se aplica a todos, exceto em crianças, para não
incomodá-las com rigores excessivos enquanto crianças. Não importa se estamos
lidando com novatos ou com atletas de alto rendimento, a economia de energia
com base na conscientização das ações é uma possibilidade a ser tentada, e, até
hoje, raramente tentada.
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